Total de visualizações de página

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Viver apaixonadamente com Kierkegaard - Damien Clerfet-Gurnaud


Kierkegaard





















O culto moderno da tecnologia
O esquecimento dessa finitude acompanha-se naturalmente de uma crença imoderada nos poderes da tecnologia. Liberto de sua finitude, o homem moderno, se considera "mestre e possuidor da natureza". 97

O progresso tecnológico mantém, assim, nossa ilusão de poder nos libertar da necessidade. 97

A lista das gloriosas conquistas da tecnologia....

Tudo acontece como se, tendo seu destino em mãos, o ser humano tivesse começado a rejeitar a necessidade para afirmar sobre ela sua liberdade soberana. 97

Se essa confiança abusiva no progresso tecnológico deve ser considerada ilusória, é sobretudo porque se baseia em uma confusão. O que a tecnologia permite combater não é a necessidade, mas a coerção. A coerção é uma necessidade particular que pesa por que contraria nossos desejos. 97-98
A tecnologia, com certeza, nos oferece os meios para combater essas coerções. Mas sem deslocar 1 cm que seja a necessidade que pesa sobre nossas existências! 98

Só se comanda a Natureza obedecendo-a. Francis Bacon 98

Só se pode mudar técnicamente o curso da natureza submetendo-se às suas leis. 98

A única coisa que o progresso tecnológico faz na realidade é nos libertar de certas necessidades que nos pesam criando outras que consideramos mais suportáveis. 98

A necessidade de envelhecer é combatida pela necessidade de uma vida medicamente assistida, a música a necessidade de se deslocar a pé é combatida pela nova necessidade de prestar atenção quando atravessamos a estrada, a necessidade de escrever à mão é combatida pela necessidade de aprender a usar um computador. 98

E é bem comum que essas novas necessidades acabem também criando novas coleções das quais também queremos nos libertar. 98

A marcha do progresso tecnológico está muito longe de reduzir a necessidade que pesa sobre nossas existências.

Ao querer pensar que o indivíduo teria o poder de vencer a necessidade ou até de reduzi-la, um tanto que seja, a época moderna se vê confrontada a um terrível problema: - Que relação ela pode manter com as coerções que ainda não conseguiu vencer? Por exemplo, certas doenças ou certas deficiências, a luz de uma visão moderna, todos esses símbolos familiares de uma finitude irrevogável não passam de problemas que exigem remédios imediatos. Quando não sabemos mais curá-las, também não sabemos mais aceitá-las. 99

🛑Em vez de aparecer como testemunhas obstinadas de nossa finitude, como eminentes portadoras da condição humana, todos esses doentes sem remissão, esses braços quebrados, esses idosos, essas pessoas com deficiência emparedadas em um corpo a que se recusa,🤔 estão condenadas a serem tratadas como figuras marginais, verdadeiras exceções à norma dominante de uma humanidade conquistadora 🤔, que dispõe pretensiosamente dela mesma. O único limite que encarnam doravante é o do poder médico, limite bastante acidental e provisório, que torna o destino deles ainda mais absurdo e insuportável. 99

Você percebe o trágico do riso? Em nossa sociedade moderna sempre apressada que nos leva a correr ainda mais proibindo-nos um tempo de verdadeira introspecção, o riso não é mais um meio de nos lembrar que nossa existência está destinada à finitude? 100

É surpreendente e, às vezes, cômico, observar como pessoas que não costumam frequentar pessoas com deficiência acreditam que estão sendo corretas agindo como se estas fossem "normais". A intenção é generosa, mas procede da convicção de que o outro não poderá ser tratado como igual, a menos que possa ser identificado com aqueles que dispõem de toda a autonomia. Não deveria ser o contrário? Não cabe a eles se reconhecerem em nós, mas a nós aprender a vê-los como realmente somos: seres frágeis e passíveis de quebrar. 100

Estamos tão acostumados a viver uma vida perfeitamente abstrata, quando não simplesmente anônima, que nos tornamos incapazes de fazer um julgamento tão simples quanto este: nossa existência é patética. 103

O que seríamos hoje sem nossos vendedores de sonhos? Nossa maneira de festejar, filmes ou de não saber mais andar na rua sem phones, para ouvir uma música é como uma droga. 103

Nasce, atravessa o tempo e morre em uma total satisfação, sem ideal a perseguir. Mas é desse ideal de beatitude que vem a nossa grandeza! .105

Devemos, pois, servir ao ideal como esse ideal é impossível alcançar, devemos ao menos nos tornar dignos dele o máximo que pudermos. 105

A primeira qualidade de uma existência ética é ser realmente uma existência, e não uma simples possibilidade de existência. Trata-se, então, de enfrentar corajosamente a passagem do tempo sem buscar se excluir vivendo uma vida por procuração, o que estamos muito inclinados a fazer. 106

Sonhar sua vida, dando-lhe as cores vantajosas de uma ilusão romanesca é uma tentação natural que devemos aprender a combater com urgência. 106

Se gostamos tanto de ficção, é porque ela nos oferece o meio barato para satisfazer nosso ideal de beatitude. Em vez de assumir a realidade como ela é, basta a poeta elevá-la em imaginação ao nível do ideal. A ficção, portanto, não nos livra realmente do sofrimento da existência; contenta-se - o que já é muito - em nos fazer esquecê-la por um momento. 106

Um analgésico não é um medicamento. Acalma a dor, sem curar o doente. 107

A tentação de fazer da estética (a teoria da arte) uma nova ética (a teoria da Vida Boa)! 107

Ao considerar a ficção como modelo, condenamo-nos a transformar insidiosamente nossa existência em uma existência de fantasia, ou seja, em uma simples possibilidade de existência. 107

O intenso prazer sentido durante uma noite na companhia de quem amamos será necessariamente fugaz. Mesmo que tantas vezes desejemos - desesperadamente - esticá-lo infinitamente, isso nos é de todo impossível. Nada nos garante que, Romeu e Julieta, se tivessem permissão para viver mais, teriam se amado por toda a vida com o mesmo amor exaltado. O mais provável é que acontecesse com eles o mesmo que com todos os outros casais: apesar de todos os artifícios que poderiam ter adotado para prologar seu primeiro estado de alma, este último não teria sobrevivido por muito tempo à repetição monótona do cotidiano. 108

DAR UM BASTA NO CARPE DIEM! 108
O importante não é prolongar o instante, mas vivê-lo em toda a plenitude.

De tanto querer "apoderar-se do instante presente", condenamo-nos a sentir mais do que qualquer um a sua terrível evanescência. 110

A vida estética é uma vida sem história. Ela tem muitas histórias para contar, porque sempre acontecem boas histórias, mas entre elas, não há continuidade suficiente para dar sentido ao vir a ser. O tempo presente tornou-se assim para nós tão inintelegível que buscamos seu sentido na história do passado. 111

Todos nós sentimos essa necessidade de trazer coerência, continuidade para nossa vida. 111

Mesmo quando alguém alcançou o objetivo supremo, a 'repetição', com a qual ele deve, como sabemos, preencher sua existência senão quis regredir (ou se tornar um ser fantástico), será novamente um esforço contínuo, porque a conclusão é aqui mais uma vez afastada e adiada. O mesmo se passa com o amor, assim como concebido por Platão, na medida em que é uma necessidade que não é sentida somente por aquele que deseja o que não tem, mas também por aquele que deseja continuar possuindo que tem. 111
🛑Um atleta de alto nível saberá muito bem... atingir esse nível exigiu-lhe muitos esforços e muitos sacrifícios. Mas ele está bem ciente de que ✨️ só conseguirá mantê-lo na 'duração' à custa dos mesmos esforços e dos mesmos sacrifícios renovados, cotidianamente ✨️ . Sabe muito bem que o topo, onde, enfim, ele poderá tranquilamente descansar não existe. 🛑 Uma vitória é fácil; difícil repeti-la 🛑. 111

Como a passagem do tempo nos distancia cada vez mais deste antegoso da beatitude que experimentamos nos primeiros instantes da paixão, devemos esforçar-nos a todo momento para reencontrá-lo. É apenas a esse preço que o amor pode durar. 112

Não é porque conseguimos reduzir a mulher ou o homem que amamos que saberemos necessariamente como nos instalar duradouramente nesse amor. Nesse sentido, não podemos confiar em nossa primeira emoção, o Amor Romântico, que não é senão é uma impulsão passageira. Como fazer, então, para durar? (...) O segredo não está tão bem guardado: pequenos gestos cotidianos valem mais do que gentilezas heróicas.112

O ESSENCIAL É QUE ELE O FAÇA TODOS OS DIAS. 112

ESFORÇO CONTÍNUO É A EXPRESSÃO PARA A CONCEPÇÃO DE VIDA ÉTICA. DO SUJEITO EXISTENTE. 115

Essa assistência na noção de esforço, de repetição, é uma característica essencial de toda a vida ética. A perspectiva da vida estética de tentar apenas se tornar o que somos nutre a ilusão de um ponto final de uma linha de chegada a partir da qual poderíamos, enfim, desfrutar tranquilamente de nós mesmos na plena satisfação daquele que, por fim, teria se encontrado. Mas é uma ilusão, pois essa plenitude que enfim, nos devolveria a nós mesmos, não podemos senão estendê-la indefinidamente em um esforço permanente que a própria definição do amor. 113-114

Em vez de acreditar que temos de descobrir o homem que somos, seria muito mais lúcido compreender que temos de nos tornar esse homem que precisamente não somos. O que pressupõe, de nossa parte uma escolha e uma resolução. 114

Kierkegaard 
Na próxima vez que embarcar em um projeto não se deixe levar pelo entusiasmo... é melhor verificar antes a solidaz de suas razões... antes de qualquer engajamento, coloque essas razões de forma explícita e pergunte a si mesmo se elas ainda valerão dentro de 10 anos. 115

O amor virtual é sempre mais envolvente que um amor concreto pois ainda está livre em qualquer coletado com a realidade. 115

Assumir que nossa identidade não nos é dada, mas que continua sendo uma tarefa permite-nos compreender que sempre somos responsáveis pelo que nos tornamos. 116

O ideal que o indivíduo estético naturalmente busca é reduzir tanto quanto possível a obrigação que teria de escolher aumentando tanto quanto possível, sua capacidade de discernir o que seria bom e vantajoso para ele. Na maioria dos casos, o que chamamos "escolher" equivale, assim, a simplesmente não escolher uma vez que apenas uma questão de encontrar a melhor resposta a um problema que nos colocamos. Se encontramos essa resposta, é evidente que em um piscar de olhos estamos dispensados de ter de escolher uma vez que a solução se impõe por si só com a melhor decisão a ser tomada. Quanto menos dúvidas tivermos sobre a decisão certa a tomar, menos teremos, afinal, de decisão real a tomar. 117

Todos aqueles cujo ofício é tomar decisões, sabem que o risco zero não existe. 117

Buscamos a alquimia secreta de um eu realizado que simplesmente não existe... 117

Não importa o que façamos, temos a capacidade de nos distanciar de nós mesmos, de nossos desejos mais poderosos, de nossos afetos mais sinceros, de nossos talentos mais manifestos. 118

O liberalismo se expõe ao mesmo defeito, o de negar soberamente nossa finitude. 121

O homem não pode ser inteiramente senhor de suas relações com a natureza, mas deseja sê-lo o máximo possível. 121

SOBERANIA DE NOSSA FINITUDE

O quinhão de sofrimentos que herdamos de nossas relações familiares e, sobretudo, daquelas que mantemos com nossos pais. ... esse sofrimento assume hoje em dia proporções também neuróticas ("esse sofrimento forçado é máximo"), é, antes de tudo, porque não estamos mais realmente em uma situação de compreendê-lo. Acreditando que somos infinitamente livres para dispormos de nós mesmos, esse sofrimento afetivo assume a aparência de um verdadeiro retorno do recalcado. 123

Cada um de nós é um emaranhado inextricável de talentos diversos, de gostos contrários, de pertencimentos entrelançados, de possibilidades divergentes. 127

Não somos imorais, tornamo-nos simplesmente a-morais. 133
Obs: A frase "Não somos imorais, tornamo-nos simplesmente a-morais" resume a transição do indivíduo para o estádio estético da existência, onde as noções de bem e mal perdem o sentido diante da busca pelo prazer e pela indiferença.
No pensamento do filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard, a vida humana se desenvolve através de três estádios ou esferas existenciais: o estético, o ético e o religioso. Esta frase explica cirurgicamente a postura do homem que vive sob a lógica puramente estética.
A diferença principal entre imoral e a-moral está na relação com a regra: o imoral desobedece a regra sabendo que ela existe, enquanto o a-moral age com indiferença ou total desconhecimento dela. Imoral (Contra a moral) x Amoral (Sem moral)

 Não é porque não fez mal a ninguém que você não fez nada de errado. Nesse caso, ao aceitar aviltar-se, você está fazendo mal a si mesmo pra judicou essa imagem ideal de si mesmo. Prejudicou essa imagem ideal de si mesmo da qual depende toda a sua existência. 135

Ao renunciar à miragem de uma existência estética, de "se esconder eticamente": dar à nossa vida não a ambição de ser feliz, mas a de nos tornar dignos da beatitude. 136

Ser um indivíduo modesto não impede de ser uma boa pessoa. 145

O que fará de seu amor um grande admirável amor, não é a qualidade singular daquele que você ama, mas a maneira como cada um de vocês saberá mostrar-se a altura desse amor. 145

🛑O medo de sermos vistos como parte de um rebanho nos leva a reivindicar orgulhosamente uma marginalidade que se aproveita de qualquer coisa: uma maneira de se verstir, uma maneira de se pentear, uma opinião deliberadamente chocante. Etc. 146

🛑A luta absurda que travam para encontrar qual diferença é mais importante que a outra é uma das misérias da vida. 147

🛑Essa pretensão de querer existir em nossa singularidade, essa incapacidade de nos afirmar de outro modo que nos distinguindo, apresenta-se hoje como o triunfo da vida individual. 148

🛑Afirmar sua singularidade comprando um carro que despertará inveja em seu vizinho, ou ter a ambição de se tornar um grande ator, mais conhecido que os outros, há ambições mais comuns? Onde, então, a individualidade se encontra afirmada em tais ambições? Em vez de uma grande singularidade, na realidade só há aqui o mais insosso e o mais desolador dos mimetismos. Consideradas como fins, todas as nossas singularidades terão valor apenas se comparadas com as singularidades dos outros. Não é de admirar, portanto, que acabemos parecendo com os outros de tanto querer obstinadamente nos distinguir deles. 149

🛑Não se deve ter como objetivo ser Si mesmo tornando-se alguém singular, pois tudo o que se ganhará no final é ser um pouco como todos os outros. É melhor procurar ser alguém singular tornando-se Si mesmo, ou seja, uma "pessoa", um paradigma de humanidade. Somente, então, nossas diferenças serão valorizadas por si mesmas, fora de qualquer espírito de comparação. 149

Nunca tente reabilitar-se moralmente, alegando que certas ações o valem no geral, mas não no seu caso particular. 150

Você pode ter desculpas quando não age moralmente, em certas situações. Mas uma desculpa não lhe dá razão. Desculpa-o, nada mais. 150

🛑Acostume-se a considerar seu trabalho como uma "vocação". Se não gosta dele, não hesite em mudar. Mas, enquanto o exercer, faça disso uma oportunidade de realização ética. Em outras palavras, use seus talentos singulares a serviço de um bem-geral. O trabalho que você faz pouco importa por si só: o que tornará sua atividade profissional uma atividade apaixonante é a seriedade existencial com a qual você a exercerá. Ainda que seja um trabalho só pelo dinheiro, repetitivo e terrivelmente chato, levantar-se bem cedo todas as manhãs e aceitar um trabalho embrutecedor para alimentar sua família é uma vocação cuja beleza não tem nada a invejar à dos outros. 150-151

Manter vivo o nosso ideal de beatitude é uma tarefa difícil, porém bem mais exaltante que a simples preocupação de se garantir uma vida confortável. 155

O sentimento de eternidade, a consciência de uma liberdade infinita e a aspiração à beatitude, estão psicologicamente apoiados na nossa existência pessoal. 155

O fanático se caracteriza justamente pelo seu desejo de querer transformar qualquer coisa, até a mais insignificante em um assunto religioso. Nem tudo "em" nossa existência é religioso. Mas, nossa existência tomada em sua dimensão existencial, é um assunto eminentemente religioso.
A religião não é então, essa esfera estreita de nossa existência destinada às relações com o divino, e sim uma maneira de considerar a vida humana, tomada com um todo, como essencialmente relacionada ao divino. 156-157

A religião não desperta esse sentimento obsecante de culpa. Oferece apenas os meios para enfrentá-lo. 157

O sentimento de ser falível: colocar nossa existência sob o signo do pecado, nada tem de uma decisão arbitrária, de uma moda malsã dos teólogos. 
É uma maneira lúcida de reconhecer que todos os esforços da ética para superar a contradição de nossa existência estão inexoravelmente fardadas ao fracasso. Não apenas nosso ideal de beachtude não pode jamais ser alcançado, como estamos condenados a viver essa importância como uma fraqueza pessoal, uma falta pela qual deveríamos ser responsabilizados. 158

A existência ética luta para satisfazer nossa ideal de beatitude. 158

Por exemplo, no início de um relacionamento geralmente prometemos amar um a outro para sempre, fielmente, como no primeiro dia
 A promessa de beatitude alojada em nossas primeiras emoções, nos parece exigir esse generoso compromisso. No entanto, mais o tempo passa menos o amor se assemelha ao entusiasmo radiante dos primeiros momentos
 A alegria inebriante do encontro, que tornava o nosso dever tão leve, cada vez mais dá lugar à secura de um rigor moral, tanto mais pesado porque parece ter perdido sua razão de ser. Afinal, a finalidade, nada mais é que o pobre substituto moral do amor, uma maneira sinistra de querer imitar o "amor eterno". A verdade é que, mesmo no melhor dos casos, não depende de nós fazer com que o que é contraditório deixe, como num passe de mágica, de se-lo. 158

Kierkegaard 

O sentimento de angústia está, assim, relacionado com o medo da falta. Observamos primeiramente que a angústia não é o medo, pois o medo supõe a representação de um objeto que causa medo. (...) a angústia não tem objeto. Despertada por algo indeterminado, ela se insinua em nós, afeta nossos corações e dá "um nó no estômago". Como antes de um exame, por exemplo. Nessa situação, não podemos designar um objeto concreto que nos daria medo; 🛑 O QUE NOS ASSUSTA É A INCERTEZA DO FUTURO, ISTO É, NOSSO MEDO DE FRACASSAR, NOSSA INCAPACIDADE DE ENFRENTAR. 🛑 159-160

NÃO PODEMOS DIZER O QUE NOS ASSUSTA NO FUTURO, A NÃO SER NOSSA INQUIETUDE DE NÃO SABER ENFRENTA-LO, NOSSA ANGÚSTIA DE COMETER UMA FALTA. TUDO PODE CAUSÁ-LA, JÁ QUE NADA A CAUSA EM PARTICULAR, A NÃO SER NOSSO PRÓPRIO MEDO DE FALHAR. O VERDADEIRO OBJETO DE NOSSA ANGÚSTIA SOMOS NÓS MESMOS, PORTANTO. 160

🛑Ninguém é obrigado a ser perfeito desde que faça o possível para se aproximar do ideal.🛑 Mesmo não conseguindo realizar tudo que aumejamos, podemos ao menos encontrar um motivo legítimo de orgulho nos esforços que nos aproximam desse ideal. Em contrapartida, ocorre o contrário, assim que constatamos que mesmo fazendo o melhor possível continuamos afastando-nos do ideal. 160

Mas uma conduta moral vale apenas o que vale a intenção ética por trás dela. Assim, um comerciante que se mostra honesto só para não prejudicar a sua boa reputação, não se comporta moralmente. Um homem que é fiel à esposa só por medo das complicações que uma relação adúltera causaria não é realmente fiel. Enquanto a intenção ética não estiver presente, nenhum de nossas boas ações poderá reivindicar o título de ação boa. 161

O defeito não está apenas no imoralismo de nossas condutas, mas também em nossas melhores intenções. 161

Um filho que tentasse, da melhor maneira possível, satisfazer os pais demasiado exigentes sente que nunca faz o suficiente ou que o que faz nunca é bom o suficiente. Em relação às exigências que seus pais lhe impõem, ele está condenado a se mostrar sempre decepcionante, pois o esperado não é que haja de uma maneira ou de outra, mas que se mostre fundamentalmente diferente do que é. Pelo menos ele pensa assim. Por isso, internaliza muito cedo um sentimento latente de culpa que o leva a acreditar ser merecedor dos castigos recebidos. 161

Estavam sobre acarregada de culpa por faltas, que não haviam cometido, mas que não podiam deixar de desejar. 162

Quantos pais, que pensavam agir corretamente, às vezes são acusados pelos filhos de terem se mostrado egoístas? Da mesma forma, uma pessoa que se considera justa pode se mostrar na realidade simplesmente cruel. Outra que se crê honesta pode agir secretamente com a intenção de parecê-lo. A esse respeito, nada é mais eloquente que as disputas em que cada um transfere a responsabilidade de uma falta cometida ao outro. Muito difícil, saber quem tem razão! 162

TODAS AS NOSSAS AÇÕES SÃO MOTIVADAS PELA VONTADE DE PODER. NIETZSCHE 163

Kierkegaard 

A imperfeição de nossa condição vivida como uma falta

Por exemplo, pode acontecer de uma mulher não sentir, espontaneamente, amor por seu bebê, e de vê-lo, primeiro, só como um estranho que se apodera de sua vida. Mesmo lhe mostrando que essa falta de amor não é sua culpa, que se deve, por exemplo, à depressão pós-parto, isso não mudaria muito para ela. Pois sabe muito bem que não pode forçar-se a amar, que não é sua culpa. Mas essa impotência não deixa de ser aos seus olhos uma falta imperdoável. Mesmo que lhe digam que não é responsável por essa frieza, ainda assim, ela não consegue não se sentir responsável. Da mesma forma, não conseguimos não não sentir culpa diante de um acidente que leva onde nossos próximos. "Se eu soubesse, pensamos, poderia ter evitado!" ou ainda "Por que isso aconteceu com ele? Eu deveria estar no seu lugar!" Essa culpa nos corrói, ela é insuportável. Teríamos, no entanto, bons motivos para considerá-la ilegítima: afinal, não somos pessoalmente responsáveis pelo que aconteceu. 163-164

MESMO NÃO DEPENDENDO DE NÓS, AINDA, ASSIM, NOS PERTENCEM E NOS ENGAJA, ENTÃO, PESSOALMENTE. 164

Todas as consolações não farão nada a respeito, mesmo que fosse impossível sentimos que deveríamos saber, quer se ignorância também também engaja nossa responsabilidade pessoal. Assim que se tornam meus defeitos, os defeitos inerentes à natureza humana logo assumem a forma de faltas. O mesmo se aplica a uma mulher que não conseguisse amar seu filho: a menos que se prove o contrário, é ela, e não outra pessoa que não tem amor. Ela está, portanto, pessoalmente engajada, pessoalmente envolvida nessa falta de amor, mesmo que não seja sua maneira de ser. 164

Afinal, fomos talhados da mesma madeira. Como não sentir culpa por sermos poupados, quando nada os predestinava mais que nós a se encontrarem arrasados por aquilo pudicamente chamado de "caprichos da vida"? Por que não deveríamos também ter nossa parcela desse sofrimento universal? Diante de um infeliz, um pobre ou um doente, não conseguimos não sentir o peso de uma dívida, de sentir a necessidade de oferecer-lhes uma compensação pelo conforto de que desfrutamos. 165

SENTIMO-NOS CULPADOS NA PONTE DE ACREDITAR QUE SOMOS PECADORES
O SENTIMENTO DE CULPA CONSTITUI UM FATO INSUPERÁVEL EM NOSSA VIDA PSICOLÓGICA. 165

Um ser que se sabe tão ligado à sua falta, uma vez que esta tem o rosto de sua própria finitude, que seu próprio ser se torna um pouco viciado. 165

O que provoca nosso desespero é a nossa incapacidade dispor de nós mesmos como gostaríamos, essa distância vivida entre, de um lado, um sentimento natural de liberdade e de eternidade e de outro, o peso opressivo de uma identidade da qual não nos podemos desfazer. Mas agora temos de explicar por que esse ódio de si assume inevitavelmente a aparência de uma condenação. "Não valho nada, sou um fracassado, alguém desinteressante": se o desesperado não se sentisse tão falível, se visse em sua incapacidade de ser si mesmo apenas um simples fato psicológico tão inevitável quanto uma lei da natureza, jamais seria levado a se desesperar de si mesmo. Por que desespera, então? Porque não consegue não ver nessa contradição que o oprime uma insuficiência que engaja sua responsabilidade pessoal. Mesmo que nada possa faze, ainda, assim, é sua culpa. 
Esse sentimento de uma falta pessoal que nada mais é que uma fraqueza existencial pode parecer horrível e sem saída. Mas, na realidade, essa consciência desesperada manifesta nossa tenacidade e esperar: do nosso sentimento de culpa, ao menos retiramos a garantia de que nossa incapacidade ser quem deveríamos ser não se deve a um vício irremediável da natureza humana, e sim a uma falta que teríamos cometido. Enquanto continuarmos a fazer dos impasses de nossas existências a marca de uma fraqueza pessoal, nossa esperança na beatitude permanecerá intacta. É claro que seria bem diferente se considerassemos que essa fraqueza existencial não é nossa culpa, e sim que expressa a triste e insuperável verdade de nossa condição humana. Então, é o próprio ideal de beatitude que, em um piscar de olhos, se tornaria uma mentira. 167

A SUBJETIVIDADE É A VERDADE. 167

Não é por se sentir responsável por muitas coisas que, desejando fazer bem feito, não se permite o fracasso? 168

Você se sentiria tão receptivo a essas reclamações se já não tivesse, por si mesmo, a tendência lastimável a se sentir culpado? Não podemos incitar alguém a se sentir culpado contra a sua vontade. 168

Sua predisposição a se sentir culpado é, então, um problema pessoal do qual não pode esperar livrar-se responsabilizando os outros pelo que lhe acontece. 168

Se você se sente tão incomodado, não é porque experimenta algum tipo de "má consciência"? Por quê? Afinal, não é culpa sua se você não passa fome e se ainda tem a sorte de andar com suas pernas! Então, por que se sente tão culpado diante do infortúnio dos outros? 168

Sem essa consciência de ser a "não verdade", nunca poderíamos abrir-nos para a ideia do divino. 169

Gostemos ou não, nossa existência é religiosa porque está inevitavelmente em relação com essa figura do divino. 169

O próprio ateu continua sendo uma figura religiosa, sua recusa em acreditar é uma maneira, mesmo sendo uma maneira negativa, de ainda se relacionar com o divino. 169

Alguns consideram, assim, perfeitamente ingênuo, como pretende a religião que os homens são os filhos de Deus, quando outros não cessam de demonstrar que Deus é que seria o filho dos homens. 169

De tanto querer procurar indefinidamente a origem do universo, somos logicamente levados a supor a existência de uma causa primeira que teria engendrado tudo sem ser ela mesma engendrada. 170

Como, com efeito, não ver nossa necessidade de infinita liberdade, de eternidade, de absoluto, um apelo para algo que está além de nós? Quanto mais nos relacionamos com nós mesmos, mais parece que por meio desse encontro se projeta a figura de um outro misterioso. 170

É DIFÍCIL PARA NÓS CONCEBER QUE O REAL POSSA SER OUTRA COISA QUE RACIONAL. 171

A CRENÇA IMODERADA NO PODER DA RAZÃO NÃO TEM EM SI MESMA NADA DE UMA CRENÇA RACIONAL. 171

ESSE É O PARADOXO SUPREMO DO PENSAMENTO, O DE QUERER DESCOBRIR ALGO EM QUE ELE MESMO NÃO POSSA PENSAR. 171

Ainda que quiséssemos não poderíamos impedir nosso pensamento de querer descobrir algo que ele mesmo não pode pensar. Nosso pensamento não depende inteiramente de nossa vontade pessoal ele vai aonde sua própria lógica o conduz. 172

Mas o que é, então, esse Desconhecido com o qual se choca a inteligência em sua paixão paradoxal e que perturba, inclusive, o homem em seu autoconhecimento? É o Desconhecido. Mas, quando menos não é nada de humano, pois o homem está em terreno conhecido, nem qualquer outra coisa conhecida dos homens. Então vamos chamar desconhecido de deus, esse é só um nome que lhe damos. 172

É, com efeito, só um nome; pouco importa se o batizamos "o outro", "o absoluto", "a diferença" ou "divina", desde que a ideia permaneça a mesma. 172

Mesmo um ateu convicto é forçado a admitir que concebe tal ideia uma vez que afirma não acreditar nela. 172

Pretender, com efeito, expressar nossa relação com o Desconhecido negando sua existência é impossível, uma vez que essa negação implica justamente a relação. 172-73

A RELIGIÃO NÃO RESIDE UNICAMENTE NA IDEIA DO DIVINO. 173

NÃO SOMOS A MEDIDA DA VERDADE. 173

Cada um de nós nutre secretamente o sonho de uma salvação que viria milagrosamente salvá-lo de si mesmo. 178

NOSSA NECESSIDADE DE CONSOLO É IMPOSSÍVEL DE SER SATISFEITA. STIG DAGERMAN 179

Sou desprovido de fé e não posso então ser feliz, pois um homem que se arrisca a temer que sua vida não passe de uma errância absurda em direção a uma morte certa não pode ser feliz. 179
Crer contra toda a verosimilhança, que o que é impossível ainda é possível é a definição mesma da fé. 181

A grande diferença de longevidade entre os casais deve-se menos aos tipos de dificuldades que enfrentam (geralmente as mesmas) que a esperança inabalável e comum que têm de superá-las. 181

Estar tranquilamente em um barco com um tempo calmo, não é uma imagem da fé, mas quando há um vazamento no barco, então, com entusiasmo, mantê-lo em boas condições com a ajuda de bombas e, no entanto, não procurar voltar ao porto: esta é a imagem da fé. 181

Se todas as religiões reveladas conheceram esse sucesso histórico, é sobretudo porque trouxeram uma mensagem de esperança às pessoas que estavam conscientes de necessitar, cruelmente dela. 182

É a uma mãe na cabeceira do filho doente que devemos a invenção da oração, assim como devemos a invenção da poesia a um amante Infeliz. Enquanto pudermos apegarmos a esperança de uma solução, a oração permanecerá inútil. Ainda podemos encontrar os recursos para agir por conta própria. Mas, quando tudo foi feito e que não resta mais esperança alguma, o que fazer senão confiar na crença de que o impossível permanece possível? Quem perdeu um ente querido sabe a esse respeito. Como enfrentar o escândalo de sua morte, a não ser alimentando a esperança de que nem tudo acabou? QUEM ESTÁ REALMENTE EM UMA SITUAÇÃO SEM SAÍDA LOGO APRENDE A DAR O SALTO DA ESPERANÇA. 183

AS PESSOAS NECESSITAM CRUELMENTE DE UMA MENSAGEM DE ESPERANÇA. 182

Uma pessoa simples e honesta que respeita o bom senso compreende muito bem que o absoluto existe e que ele não pode ser compreendido. 183

Como não posso alcançar meu ideal nesta vida, diz o resignado, então será mais tarde. Tenho de ser paciente e suportar o que me acontece, no tempo desta vida. Supondo 1ue tal atitude seja possível, porque seria recomendável? Porque, por exemplo, deveríamos aceitar a resignação em ver morrer uma criança levada pela doença? Como teríamos até mesmo o direito de nos resignar com esse sofrimento? 184
Uma vez que não podemos lutar contra a necessidade, de nada serve pretender combatê-la. Pelo contrário, é preciso aceitá-la e, até mesmo, idealmente, aprender a querer o que ela nos impõe, vendo-a como a manifestação de uma razão soberana. Os estoicos chamavam isso de "amor fati", o "amor ao destino". 184

Apesar de todas as sábias recomendações dos filósofos, recusamo-nos a nos resignar à presença do mal, ao árbitro da doença, ao escândalo da pena imerecida. 183

Mas somos indivíduos e, para nós, é tão rigorosamente impossível renunciar a nossa liberdade quanto querer renunciar à habitar "este" mundo. Por isso temos naturalmente necessidade de acreditar em milagres. O milagre não é uma solução para outro mundo, mas uma solução para si e agora. A fé religiosa não é uma maneira de renunciar esta vida, e sim uma maneira de aderir a ela como nunca, com a confiança inabalável daquele que, aconteça o que acontecer, já venceu a necessidade. 186

O 🛑resignado🛑 lhe dirá, no entanto: "Liberte-se de todas essas correntes que a prendem ao mundo e ao seu filho. Pois, no céu, você não terá nem pai, nem filho". 186

O 🛑estoico🛑 lhe dirá: "Se perder seu filho, diga a si mesmo que o devolveu, pois ele não lhe pertencia". 186

E o 🛑crente🛑, o que lhe dirá? A única coisa que ela necessite ouvir em um momento como este: "Console-se, porque ele não está morto. A morte foi derrotada. Seu filho lhe será devolvido". Em termos de consolo, nenhum sistema erudito de filosofia ainda não encontrou algo melhor. É por isso que a vida religiosa ainda permanece por muito tempo o único horizonte pensável de nossa existência. 186

APRENDA A CONFIAR. Se você emprestar dinheiro apenas aqueles que considera confiáveis, então não será mais uma confiança, mas um investimento calculado. 187

TENHA A CORAGEM DE ESPERAR. As mais belas realizações não foram alcançadas na base de probabilidades favoráveis, mas apesar delas. Quando um homem sozinho contra a opinião de todos acredita que é possível fazer o que todos acreditam serem possível, ele tem fé. E somente a fé, como sabemos, pode mover motanhas! 187
Aprenda a considerar que tudo que você conseguiu com seu esforço na realidade. Você o recebeu. 187

APRENDA A CONSIDERAR QUE TUDO QUE VOCÊ CONSEGUIU COM SEU ESFORÇO, NA REALIDADE, VOCÊ O RECEBEU. 187

SEJA HUMILDE E ACEITE SER O INSTRUMENTO DE UMA PROVIDÊNCIA QUE ESTÁ ALÉM DE VOCÊ. 188

Rarissimos, são os pensadores dos quais podemos afirmar que viveram, como pensaram e que pensaram tudo o que viveram. Kierkegaard é um desses. 189

Em seus sofrimentos de indivíduo, ele sob percebeu. Drama completo da existência e era assim que pretendia vivê-los. Pensador Existencial, mostrou-se também um vivente existencial, atento a fazer de si mesmo, em suas fraquezas como em suas escolhas, um paradigma de humanidade. 191

14 ANOS PARA PRODUZIR UMA OBRA COLOSSAL. MORREU AOS 42 ANOS DE IDADE EM 11/11/1855. SUA CARREIRA DE PENSADOR NÃO PASSOU DE UMA LONGA EXPLICAÇÃO PARA SUA VIDA. 189



Nenhum comentário: