Kierkegaard
O culto moderno da tecnologia
O esquecimento dessa finitude acompanha-se naturalmente de uma crença imoderada nos poderes da tecnologia. Liberto de sua finitude, o homem moderno, se considera "mestre e possuidor da natureza". 97
O progresso tecnológico mantém, assim, nossa ilusão de poder nos libertar da necessidade. 97
A lista das gloriosas conquistas da tecnologia....
Tudo acontece como se, tendo seu destino em mãos, o ser humano tivesse começado a rejeitar a necessidade para afirmar sobre ela sua liberdade soberana. 97
Se essa confiança abusiva no progresso tecnológico deve ser considerada ilusória, é sobretudo porque se baseia em uma confusão. O que a tecnologia permite combater não é a necessidade, mas a coerção. A coerção é uma necessidade particular que pesa por que contraria nossos desejos. 97-98
A tecnologia, com certeza, nos oferece os meios para combater essas coerções. Mas sem deslocar 1 cm que seja a necessidade que pesa sobre nossas existências! 98
Só se comanda a Natureza obedecendo-a. Francis Bacon 98
Só se pode mudar técnicamente o curso da natureza submetendo-se às suas leis. 98
A única coisa que o progresso tecnológico faz na realidade é nos libertar de certas necessidades que nos pesam criando outras que consideramos mais suportáveis. 98
A necessidade de envelhecer é combatida pela necessidade de uma vida medicamente assistida, a música a necessidade de se deslocar a pé é combatida pela nova necessidade de prestar atenção quando atravessamos a estrada, a necessidade de escrever à mão é combatida pela necessidade de aprender a usar um computador. 98
E é bem comum que essas novas necessidades acabem também criando novas coleções das quais também queremos nos libertar. 98
A marcha do progresso tecnológico está muito longe de reduzir a necessidade que pesa sobre nossas existências.
Ao querer pensar que o indivíduo teria o poder de vencer a necessidade ou até de reduzi-la, um tanto que seja, a época moderna se vê confrontada a um terrível problema: - Que relação ela pode manter com as coerções que ainda não conseguiu vencer? Por exemplo, certas doenças ou certas deficiências, a luz de uma visão moderna, todos esses símbolos familiares de uma finitude irrevogável não passam de problemas que exigem remédios imediatos. Quando não sabemos mais curá-las, também não sabemos mais aceitá-las. 99
🛑Em vez de aparecer como testemunhas obstinadas de nossa finitude, como eminentes portadoras da condição humana, todos esses doentes sem remissão, esses braços quebrados, esses idosos, essas pessoas com deficiência emparedadas em um corpo a que se recusa,🤔 estão condenadas a serem tratadas como figuras marginais, verdadeiras exceções à norma dominante de uma humanidade conquistadora 🤔, que dispõe pretensiosamente dela mesma. O único limite que encarnam doravante é o do poder médico, limite bastante acidental e provisório, que torna o destino deles ainda mais absurdo e insuportável. 99
Você percebe o trágico do riso? Em nossa sociedade moderna sempre apressada que nos leva a correr ainda mais proibindo-nos um tempo de verdadeira introspecção, o riso não é mais um meio de nos lembrar que nossa existência está destinada à finitude? 100
É surpreendente e, às vezes, cômico, observar como pessoas que não costumam frequentar pessoas com deficiência acreditam que estão sendo corretas agindo como se estas fossem "normais". A intenção é generosa, mas procede da convicção de que o outro não poderá ser tratado como igual, a menos que possa ser identificado com aqueles que dispõem de toda a autonomia. Não deveria ser o contrário? Não cabe a eles se reconhecerem em nós, mas a nós aprender a vê-los como realmente somos: seres frágeis e passíveis de quebrar. 100
Estamos tão acostumados a viver uma vida perfeitamente abstrata, quando não simplesmente anônima, que nos tornamos incapazes de fazer um julgamento tão simples quanto este: nossa existência é patética. 103
O que seríamos hoje sem nossos vendedores de sonhos? Nossa maneira de festejar, filmes ou de não saber mais andar na rua sem phones, para ouvir uma música é como uma droga. 103
Nasce, atravessa o tempo e morre em uma total satisfação, sem ideal a perseguir. Mas é desse ideal de beatitude que vem a nossa grandeza! .105
Devemos, pois, servir ao ideal como esse ideal é impossível alcançar, devemos ao menos nos tornar dignos dele o máximo que pudermos. 105
A primeira qualidade de uma existência ética é ser realmente uma existência, e não uma simples possibilidade de existência. Trata-se, então, de enfrentar corajosamente a passagem do tempo sem buscar se excluir vivendo uma vida por procuração, o que estamos muito inclinados a fazer. 106
Sonhar sua vida, dando-lhe as cores vantajosas de uma ilusão romanesca é uma tentação natural que devemos aprender a combater com urgência. 106
Se gostamos tanto de ficção, é porque ela nos oferece o meio barato para satisfazer nosso ideal de beatitude. Em vez de assumir a realidade como ela é, basta a poeta elevá-la em imaginação ao nível do ideal. A ficção, portanto, não nos livra realmente do sofrimento da existência; contenta-se - o que já é muito - em nos fazer esquecê-la por um momento. 106
Um analgésico não é um medicamento. Acalma a dor, sem curar o doente. 107
A tentação de fazer da estética (a teoria da arte) uma nova ética (a teoria da Vida Boa)! 107
Ao considerar a ficção como modelo, condenamo-nos a transformar insidiosamente nossa existência em uma existência de fantasia, ou seja, em uma simples possibilidade de existência. 107
O intenso prazer sentido durante uma noite na companhia de quem amamos será necessariamente fugaz. Mesmo que tantas vezes desejemos - desesperadamente - esticá-lo infinitamente, isso nos é de todo impossível. Nada nos garante que, Romeu e Julieta, se tivessem permissão para viver mais, teriam se amado por toda a vida com o mesmo amor exaltado. O mais provável é que acontecesse com eles o mesmo que com todos os outros casais: apesar de todos os artifícios que poderiam ter adotado para prologar seu primeiro estado de alma, este último não teria sobrevivido por muito tempo à repetição monótona do cotidiano. 108
DAR UM BASTA NO CARPE DIEM! 108
O importante não é prolongar o instante, mas vivê-lo em toda a plenitude.
De tanto querer "apoderar-se do instante presente", condenamo-nos a sentir mais do que qualquer um a sua terrível evanescência. 110
A vida estética é uma vida sem história. Ela tem muitas histórias para contar, porque sempre acontecem boas histórias, mas entre elas, não há continuidade suficiente para dar sentido ao vir a ser. O tempo presente tornou-se assim para nós tão inintelegível que buscamos seu sentido na história do passado. 111
Todos nós sentimos essa necessidade de trazer coerência, continuidade para nossa vida. 111
Mesmo quando alguém alcançou o objetivo supremo, a 'repetição', com a qual ele deve, como sabemos, preencher sua existência senão quis regredir (ou se tornar um ser fantástico), será novamente um esforço contínuo, porque a conclusão é aqui mais uma vez afastada e adiada. O mesmo se passa com o amor, assim como concebido por Platão, na medida em que é uma necessidade que não é sentida somente por aquele que deseja o que não tem, mas também por aquele que deseja continuar possuindo que tem. 111
🛑Um atleta de alto nível saberá muito bem... atingir esse nível exigiu-lhe muitos esforços e muitos sacrifícios. Mas ele está bem ciente de que ✨️ só conseguirá mantê-lo na 'duração' à custa dos mesmos esforços e dos mesmos sacrifícios renovados, cotidianamente ✨️ . Sabe muito bem que o topo, onde, enfim, ele poderá tranquilamente descansar não existe. 🛑 Uma vitória é fácil; difícil repeti-la 🛑. 111
Como a passagem do tempo nos distancia cada vez mais deste antegoso da beatitude que experimentamos nos primeiros instantes da paixão, devemos esforçar-nos a todo momento para reencontrá-lo. É apenas a esse preço que o amor pode durar. 112
Não é porque conseguimos reduzir a mulher ou o homem que amamos que saberemos necessariamente como nos instalar duradouramente nesse amor. Nesse sentido, não podemos confiar em nossa primeira emoção, o Amor Romântico, que não é senão é uma impulsão passageira. Como fazer, então, para durar? (...) O segredo não está tão bem guardado: pequenos gestos cotidianos valem mais do que gentilezas heróicas.112
O ESSENCIAL É QUE ELE O FAÇA TODOS OS DIAS. 112
ESFORÇO CONTÍNUO É A EXPRESSÃO PARA A CONCEPÇÃO DE VIDA ÉTICA. DO SUJEITO EXISTENTE. 115
Essa assistência na noção de esforço, de repetição, é uma característica essencial de toda a vida ética. A perspectiva da vida estética de tentar apenas se tornar o que somos nutre a ilusão de um ponto final de uma linha de chegada a partir da qual poderíamos, enfim, desfrutar tranquilamente de nós mesmos na plena satisfação daquele que, por fim, teria se encontrado. Mas é uma ilusão, pois essa plenitude que enfim, nos devolveria a nós mesmos, não podemos senão estendê-la indefinidamente em um esforço permanente que a própria definição do amor. 113-114
Em vez de acreditar que temos de descobrir o homem que somos, seria muito mais lúcido compreender que temos de nos tornar esse homem que precisamente não somos. O que pressupõe, de nossa parte uma escolha e uma resolução. 114
















Nenhum comentário:
Postar um comentário