A ARTE DA GUERRA - MAQUIAVEL
A arte de
1. Arregimentar
2. Disciplinar
3. Preparar-se
4. Inspirar
5. Precaver-se.
PONTOS CENTRAIS
1. Recrutamento humano
2. Tipos de armas
3. Treinamento intensivo e disciplinador
4. Formas ideais de acampamento
5. Construção e ataque nas fortificações
6. Tipos de víveres a levar
7. Terrenos mais apropriados
8. Recompensas e castigos
UM LIVRO TÉCNICO SOBRE A ARTE DE ARREGIMENTAR E DISCIPLINAR UM EXÉRCITO, DE PREPARAR-SE PARA UMA GUERRA DEFENSIVA, MOVER GUERRA OFENSIVA, INSPIRAR O GUERREIRO À PRECAUÇÃO PARA CONQUISTAR A VITÓRIA. 7
O mundo evoluiu espantosamente, mas guerra e paz, dominio e poder, devastação e conquista, são temas tão prementes hoje quanto o eram no Século XVI e hoje, talvez, até mais do que o eram então. 7 nota do Tradutor. 8
Ser rápido e estar pronto para cometer qualquer espécie de violência. 9
Entre os antigos, nas repúblicas e nas monarquias, se havia uma classe de cidadãos a quem se procurava inspirar de preferência a fidelidade às leis, o amor à paz e o respeito aos deuses, era, certamente, aos cidadãos que eram soldados. De quem, com efeito, a pátria deveria esperar a maior fidelidade do que aquele que prometeu morrer por ela? Quem deveria amar mais a pátria, senão aquele que geralmente mais sofre com a guerra? Quem, enfim, deveria respeitar, sobretudo, a Deus senão aquele que, expondo-se todos os dias a uma multidão de perigos, tem maior necessidade do auxílio do céu? 10
O único pesar que confessou no leito de morte, a seus amigos foi o de morrer entre seus familiares, jovem e sem glórias, sem que qualquer serviço importante pudesse ter assinalado sua carreira. Sentia que não haveria nada a dizer dele, a não ser que havia se conservado fiel à amizade. 13
COSTUMES ANTIGOS: Se alguém educar seus filhos para as batalhas, como os espartanos, fazendo-os dormir ao relento, marchando descalços e com a cabeça coberta e tomar banho nas águas geladas durante o inverno, para fortalecê-los contra a dor, para enfraquecer neles o amor pela vida e lhes inculcar o desprezo da morte... só vivesse de verduras... desprezasse as riquezas... 16
Necessário honrar e recompensar a virtude, não desprezar a pobreza, ter estima pelas instituições e disciplinas militares, empenhar os cidadãos a ter estima recíproca, a fugir das facções, a preferir os benefícios comuns em vez das vantagens pessoais. Enfim, praticar outras virtudes similares bem compatíveis com os tempos de hoje. 17
Guerra feita como profissão não pode ser exercida honestamente pelos privados em qualquer tempo. A guerra deve ser tarefa exclusiva dos governos, das repúblicas ou dos reinos. Um estado bem constituído jamais permitiu a seus cidadãos ou a seus súditos movê-la, por iniciativa deles próprios, e jamais, a bem dizer, um homem de bem, a abraçou como sua profissão específica. 18
POR QUE HOMENS NÃO DEVEM TER A GUERRA COMO ÚNICA PROFISSÃO?
... os roubos, os assassinados, a violência de todo tipo, coisas que tais soldados se permitem em relação a seus amigos e a seus inimigos. Seus comandantes, na necessidade de afastar a paz, arquitetam mil artimanhas para prolongar a guerra e, se a paz finalmente é estabelecida, forçadas a renunciar a seu soldo e à luxúria de seus costumes, organizam um bando de aventureiros e passam a saquear, sem piedade, províncias inteiras. (...) esse foi o comportamento de todos os soldados da Itália que fizeram da guerra sua única profissão. 19
A GUERRA FAZ OS LADRÕES E A PAZ. OS LEVA À FORCA
De fato, quando um cidadão que vivia unicamente da guerra perdeu esse meio de subsistência, não tem a virtude suficiente para saber se curvar, como o homem honrado, sob o jugo da necessidade. Ele é forçado pela própria necessidade, a vagar pelas grandes estradas, forçando a justiça a caçá-lo para o destino da forca. 19-20
Um homem honesto não pode abraçar, como sua profissão, o exercício das armas... uma república ou o reino sabiamente constituído jamais permitiriam isso a seus cidadãos ou a seus súditos. 20
Enquanto a república se manteve pura, jamais um cidadão poderoso procurou servir-se da profissão das armas para manter, durante a paz, sua autoridade, derrubar todas as leis, devastar as províncias, tiranizar sua pátria e submeter tudo à sua vontade. Jamais um cidadão das classes inferiores do povo ousou o violar seu juramento militar, aliar sua fortuna àquela dos cidadãos privados, desafiar a autoridade do Senado e promover atentados contra a liberdade, a fim de poder viver o tempo todo, com sua profissão das armas. Os generais, nos primeiros tempos, satisfeitos com as honras do triunfo, voltavam, de bom grado, à vida privada. Os soldados depunham as armas com prazer muito maior de quando as haviam tomado e retomavam suas atividades habituais sem nunca terem concebido o projeto de viver do produto das armas e dos despojos de guerra. 20
Um dos grandes privilégios que o povo romano concedia a um cidadão era o de não ser obrigado a pegar em armas contra a sua vontade. 21
Um estado bem constituído deve, portanto, prescrever a arte da guerra aos cidadãos como um exercício, um objeto de estudo durante a paz e, durante a guerra, como um objeto de necessidade e uma ocasião para conquistar glória. Mas compete tão somente ao governo, como ocorreu com o de Roma, exercê-lo como empreendimento. Todo cidadão privado, que tem outro objetivo no exercício da guerra é um mau cidadão. Todo Estado que é regido por outros princípios é um Estado mal constituído. 21
Um rei não deve preferir cercar-se de homens que se ocupem unicamente da guerra. Uma monarquia bem constituída deve evitar com todas as suas forças, uma semelhante ordem das coisas que só serve para corromper o rei e para criar agentes de tirania. 21
Uma monarquia bem constituída não concede a seu rei uma autoridade sem limites, a não ser sobre os exércitos. Somente nesses é que subsiste a necessidade de tomar decisões rápidas e por isso é preciso que um só comande. Em todo o resto, porém, um rei nada deve fazer sem um conselho, e esse conselho deve temer que subsista na corte do rei uma classe de homens que, durante a paz, deseje constantemente a guerra porque sem a guerra ela não pode viver. 23
Um rei deve recear aqueles que não têm outra profissão a não ser aquela das armas. 22
Se um rei não comanda seu exército de tal modo que, em tempos de paz, a infantaria não deseje voltar a seus lares para exercer suas respectivas profissões, esse rei está perdido. A infantaria mais perigosa é aquela que não tem outra profissão senão a guerra, porque um rei que dela se tem servido uma vez é forçado a mover guerra sempre ou pagá-la sempre ou ainda correr o risco de se ver. Despojar de seus Estados. Mover guerra sempre é impossível. Pagá-la sempre não é menos impossível. Não resta outro perigo senão o de perder seus Estados. 22
Por isso, os romanos, enquanto conservaram sua sabedoria e sua virtude, jamais permitiram, como já o disse, que os cidadãos fizessem da guerra sua única profissão. Não era porque não pudessem pagá-los.sempre, pois estavam sempre em guerra, mas porque temiam os perigos que decorrem da profissão continuada das armas. 22
MESMO QUE AS CIRCUNSTÂNCIAS NÃO MUDASSEM, OS HOMENS MUDAVAM SEM CESSAR. 22
Os romanos regulamentaram de tal modo o tempo de serviço militar que, em 15 anos, suas legiões se encontravam totalmente renovadas. Só queriam homens na flor da idade, desde os 18 até os 35 anos. Nessa etapa da vida, pernas, braços e olhos gozam de igual vigor e não esperavam que o soldado perdesse forças ou crescesse em insubordinação, como ocorria nos tempos corruptos da república. 22
Os reis, ciosos de sua segurança, devem, portanto, compor sua infantaria de homens que, no momento da guerra, dediquem-se, de boa vontade, por amor deles, ao serviço dos exércitos, mas que, selada a paz, retornem com a maior boa vontade para seus lares. 23
É preciso que recrutem homens que possam viver de outra profissão e não somente daquela das armas. 23
Um rei deve pretender que, ao final da guerra, seus grandes vassalos voltem para governar seus súridos, seus comandantes voltem para cultivar suas terras, sua infantaria retorne para exercer suas diversas profissões, e cada um deles, enfim, deixe voluntariamente a guerra para ter paz e procure não perturbar a paz para ter guerra. 23
Não repita mais, portanto, que na paz todo militar encontra meios de subsistência. A questão de manter soldados pagos durante a paz é muito mais difícil de resolver. 24
... esse costume de pagar soldados é repreensível, funesto e sujeito aos maiores abusos. 24
... ao modo dos antigos que compunham sua cavalaria com seus próprios súditos, enviados depois durante os períodos de paz,
Para o exercício de suas profissões habituais. 24
... se hoje parte das tropas vive da profissão das armas, só acontece por causa da corrupção de nossas instituições militares. Quanto aos vencimentos que são mantidos para nós generais, afirmo uma vez mais que é uma medida muito perniciosa. Uma república sábia não deve concedê-los a ninguém e só deve ter na guerra generais escolhidos entre seus próprios cidadãos. Além disso, em tempos de paz deve obrigá-los a retornar a sua prossão habitual. 24
Um rei prudente não deve igualmente conceder qualquer vencimento a seus generais, exceto se for como recompensa de grande ação ou o preço dos serviços que esses lhe prestam durante a paz. 25
Minha profissão é governar meus súditos e defendê-los. Para tanto, DEVO AMAR A PAZ E SABER FAZER A GUERRA. 25
As recompensas e a estima de meu rei não são tanto o preço de meus talentos militares, mas os conselhos que faz questão de receber de mim durante a paz. Todo rei sábio e que quer governar com prudência só deve querer junto dele homens desse tipo. É igualmente perigoso para ele que aqueles que o cercam, sejam demasiado amigos da paz ou demasiado amigos da guerra. 25
QUEM SABE CONDUZIR UMA BATALHA É PERDOADO DE TODOS OS ERROS QUE POSSAM TER COMETIDO EM SUA CONDUTA MILITAR, mas aquele que carece desse dom, por maiores elogios que possa merecer nas demais partes, jamais haverá de concluir uma guerra com honra. 25
UMA VITÓRIA DESTRÓI O EFEITO DAS PIORES OPERAÇÕES E UMA DERROTA FAZ ABORTAR OS PLANOS MAIS SABIAMENTE TRAÇADOS. 25
Aqueles que escreveram sobre a guerra querem que se escolha os soldados em regiões temperadas, único meio, dizem eles de se ter homens sábios e intrépidos, porque nas regiões quentes, os homens têm prudência sem coragem, e, nas regiões frias, coragem sem prudência. 25
Como quero estabelecer aqui regras que sejam úteis a todos os governos limito-me a dizer que cada Estado deve escolher suas tropas em seu próprio país, seja ele frio, quente ou temperado, pouco importa. 26
Os antigos nos fornecem uma multidão de exemplos que atestam que COM BOA DISCIPLINA SE TEM BONS SOLDADOS EM QUALQUER REGIÃO. A DISCIPLINA SUPRE AS DEFICIÊNCIAS DA NATUREZA E É MAIS FORTE QUE SUAS LEIS. 26
OS ESTRANGEIROS QUE SE ALISTAM VOLUNTARIAMENTE SOBRE VOSSOS ESTANDARTES, LONGE DE SEREM OS MELHORES, SÃO, PELO CONTRÁRIO, OS PIORES INDIVÍDUOS DO PAÍS. 26
SE EM ALGUM LUGAR HÁ HOMENS DESONRADOS, INDOLENTES EM RELIGIÕES, SEM FREIO, REBELDES À AUTORIDADE PATERNA, LIBERTINOS, ENTREGUES DESENFREADAMENTE AO JOGO E A TODOS OS VÍCIOS, SÃO AQUELES QUE QUEREM EXERCER A PROFISSÃO DAS ARMAS. E NÃO HÁ NADA MAIS CONTRÁRIO À VERDADEIRAS E SABIAS INSTITUIÇÕES MILITARES QUE SEMELHANTES HÁBITOS. 26
É POSSÍVEL ESCOLHER, MAS A BASE SENDO MÁ, A SELEÇÃO NÃO PODE SER BOA. 26
Se ao contrário, como ocorre frequentemente, não preencherem o número de que se tem necessidade, fica-se na obrigação de tomá-los todos. Em tal caso, não se trata mais de fazer uma seleção, mas de arregimentar soldados. 26-27
Todos aqueles que escreveram sobre a arte militar dão preferência aos homens dos campos, porque são mais robustos, mais afeitos as fadigas, mais bem acostumados a viver ao ar livre, a suportar o ardor do sol, o trabalhar o ferro, a cavar um fosso e a carregar fardos e, finalmente, mais afastados de todo tipo de vício. Vou dizer qual é a minha opinião a respeit. Como há soldados a pé e a cavalo, gostaria que os primeiros fossem escolhidos nas zonas rurais e os segundos nas cidades. 27
Idade pra recrutamento: se tivesse de formar um exército completo, eu os escolheria desde 17 até os 40 anos, mas aos 17, somente quando, com o exército formado, tivesse de renová-lo. 27
A ARTE DA GUERRA - MAQUIAVEL
Idade militar... num país em que esse exército já estivesse formado, não poderia arregimentar para renová-lo senão homens de 17 anos, porquanto os demais já teriam sido escolhidos e recrutados. 28
Nunca, numa certa idade, alguém pode habituar-se aos exercícios militares e a OBRIGAÇÃO JAMAIS PRODUZIU BONS SOLDADOS. 28
A INEXPERIÊNCIA CONFERE POUCA CORAGEM E A OBRIGAÇÃO PRODUZ DESCONTENTES. 29
Se vossos soldados forem bem armados, bem exercitados e bem distribuídos, haverão de adquirir aos poucos experiência e coragem. 28
A LIBERDADE TOTAL APRESENTA INCONVENIENTES. 29
Um excesso de obrigação produziria efeitos negativos. Torna-se, pois, necessário tomar um meio termo, igualmente distante do excesso de obrigação e do excesso de liberdade. 29
As armas fornecidas pelas leis e pela constituição aos cidadãos e aos súditos jamais causaram perigos, mas, muitas vezes, os preveniram, e AS REPÚBLICAS SE CONSERVAM POR MAIS TEMPO ARMADAS DO QUE SEM ARMAS. Roma viveu livre por 400 anos e estava armada. Esparta, 800 anos. Outras repúblicas privadas desse recurso não puderam conservar sua liberdade por mais de 40 anos. ARMAS SÃO NECESSÁRIAS PARA UMA REPÚBLICA. 29
2 INIMIGOS SÃO MAIS TEMIDOS QUE UM SÓ E TODA A REPÚBLICA QUE EMPREGA TROPAS ESTRANGEIRAS DEVE TEMER AO MESMO TEMPO O ESTRANGEIRO PAGO POR ELA E SEUS PRÓPRIOS CIDADÃOS. 30
Aquela que só emprega suas próprias armas, só tem a temer seus cidadãos. 30
UM GENERAL DO MAR, HABITUADO A COMBATER TANTOS OS VENTOS COMO AS ONDAS E OS HOMENS, TORNAR-SE-IA MUITO MAIS FACILMENTE UM BOM GENERAL EM TERRA, ONDE SOMENTE OS HOMENS OFERECEM RESISTÊNCIA, DO QUE UM GENERAL DE TERRA PODERIA SE TORNAR UM GENERAL DO MAR. 30
NÃO SÃO AS ARMAS COLOCADAS NAS MÃOS DOS CIDADÃOS QUE LHES INSPIRAM PLANOS DE TIRANIA, MAS SOMENTE AS MÁS INSTITUIÇÕES E, BASTANTE SATISFEITOS POR POSSUÍREM UM BOM GOVERNO, NADA DEVIAM TEMER DE SUAS ARMAS. 31
Foi grande o erro do rei da França o fato de não exercitar seu povo para a guerra. 31
Um Estado não pode basear sua segurança a não ser em seus próprios exércitos; esses exércitos só podem ser bem organizados mediante a formação de milícias que, enfim, só existe esse meio para estabelecer um exército num país e formá-lo na disciplina militar. 31
Se tivesse que recrutar um antigo exército, só escolheria soldados de 17 anos, mas que se fosse obrigado a criar um novo, eu os escolheria de todas as idades desde os 17 até os 40 anos, a fim de poder servir-me dele de imediato. 31
Não me deixaria levar a julgar a utilidade de um homem segundo sua profissão, mas me limitaria a examinar os serviços que poderia prestar pessoalmente. Por esse motivo é que os camponeses habituados a trabalhar a terra são mais úteis que todos. Não há profissão da qual se possa extrair melhores elementos para o exército. 31
Seria muito útil ter um grande número de ferreiros, e carpinteiros, de ferradores e de cortadores de pedra. Temos necessidade de suas profissões em muitas circunstâncias, e nada há de mais vantajoso que ter soldados de quem se pode obter duplo serviço. 31-32
Na falta de experiência, é preciso recorrer às conjecturas baseadas na idade, na profissão e no porte físico. 32
A agilidade do corpo é bastante para outros, e essa era a opinião de César. Essa agilidade é julgada pela compleição e pela boa aparência do soldado. Olhos vivos e animados, pescoço rijo, peito largo, músculos dos braços bem demarcados, dedos compridos, pouca barriga, flancos arredondados, pernas e pés secos. 32
ACIMA DE TUDO, PORÉM, DEVE-SE PRESTAR A MAIOR ATENÇÃO AOS HÁBITOS DO SOLDADO. É PRECISO QUE TENHA HONESTIDADE E VERGONHA, CASO CONTRÁRIO, TORNA-SE UM INSTRUMENTO DE DESORDENS E UM PRINCÍPIO DE CORRUPÇÃO. DE FATO, JAMAIS SE PODE ESPERAR ALGO DE HONESTO, NUNCA SE PODE ESPERAR A VIRTUDE DE UM HOMEM PRIVADO DE QUALQUER EDUCAÇÃO E EMBRUTECIDO PELO VÍCIO. 32
O GRANDE NÚMERO É SEM DÚVIDA, MAIS SEGURO E MAIS ÚTIL QUE O PEQUENO MELHOR, DIZENDO, É IMPOSSÍVEL FORMAR EM QUALQUER LUGAR. UMA BOA MILÍCIA. SE NÃO FOR MUITO NUMEROSA. (...) O pequeno número tomado diante de uma grande multidão não faz absolutamente nada, mesmo que sejam soldados mais seguros e mais bem escolhidos. 34
É um grande erro, portanto, escolher, primeiramente, um pequeno número para sentir-se mais seguro. 35
A milícia, por quanto imperfeita que seja sua organização, não traz cansaço algum aos cidadãos, pois não os tira de seu trabalho nem os afasta de qualquer modo de seus negócios e só os obriga a reunir-se nos dias de festa para os exercícios. 35
Querer, portanto, montar uma milícia paga o tempo todo é apresentar uma proposta inútil ou impossível. Não resta dúvida que é preciso pagar a milícia mas quando é enviada para a guerra. 35
O NÚMERO CONTRIBUI COM CERTEZA PARA ESSA REPUTAÇÃO. 36
Cidadãos armados só podem provocar desordens de 2 maneiras: Atacando-se, mutuamente ou atacando o restante dos cidadãos. Mas é fácil evitar esse perigo quando a própria instituição não for o primeiro remédio. Com relação ao temor de vê-los atacar-se mutuamente, sustento que, ao conceder-lhes armas e estabelecer comandantes, extinguem-se seus motins e de modo algum são fomentados. 36
SUFOCAMOS TODO O VESTÍGIO DE DIVISÃO E PREPARAMOS OS MEIOS PARA CONCÓRDIA. 37
É preciso que vossa instituição seja organizada de tal modo que todos os anos os comandantes passem de um comando a outro. UMA AUTORIDADE PROLONGADA SOBRE OS MESMOS HOMENS FAZ SURGIR ENTRE ELES E SEUS COMANDANTES UMA UNIÃO ÍNTIMA QUE SÓ PODE SER PREJUDICIAL AOS INTERESSES DO SOBERANO. 37
NEM OS BONS NEM OS MAUS EXEMPLOS PODEM DESTRUIR OS PERNICIOSOS HÁBITOS QUE A IGNORÂNCIA OU O POUCO CUIDADO INTRODUZIRAM ENTRE OS HOMENS. 37-38
A MILÍCIA DEVE SER A BASE DO NOSSO RECRUTAMENTO. 39
Na seleção de cavaleiros, os antigos recrutavam entre os mais ricos, observando ao mesmo tempo, a idade e a qualidade. (...) imitaria os romanos e os recrutaria entre os ricos, dando-lhes comandantes como se faz hoje e tendo o cuidado de armá-los e de treiná-los. 38
NÃO SE PODE FAZER COM QUE OS CIDADÃOS SE QUEIXEM DE ACRÉSCIMO. DE IMPOSTOS. 38
Os antigos variavam as músicas segundo o que pretendiam, isto é, inflamar, acalmar ou deter a impetuosidade de seus soldados. O estilo de música dórica, inspirava a constância e o estilo frígio, o furor. 67
SURGEM MUITO MAIS GRANDES HOMENS NUMA REPÚBLICA DO QUE NUMA MONARQUIA. NAQUELA, O MÉRITO É HONRADO, NESTA É TEMIDO. NAQUELA INFUNDE-SE CORAGEM, NESTA PROCURA SE EXTINGUI-LA. 68
O número dos grandes homens depende do número de Estados, deve-se concluir que quando esses são aniquilados, o número de grandes homens diminui com as oportunidades de exercer sua capacidade. 68
Temos antigos:
O vencido era massacrado ou levava uma vida miserável numa eterna escravidão. As cidades tomadas eram saqueadas ou seus habitantes eram expulsos delas depois de lhes terem tirado todos os seus bens e eram dispersados pelo mundo inteiro. Não havia, enfim, misérias que os vencidos não tivessem de suportar.
Todo Estado aterrorizado por tantas desventuras, mantinha constantemente seus exércitos em atividade e concedia grandes honras a todo militar que se distinguia.
Hoje, todos esses temores não existem mais em grande parte. A vida dos vencidos é quase sempre respeitada, não ficam prisioneiros por muito tempo e recuperam facilmente a liberdade.
Uma cidade age inutilmente revoltando-se 20 vezes; jamais será destruída e seus habitantes conservam todas as suas propriedades; tudo o que tem a temer é ter de pagar um tributo. Por isso, ninguém mais quer se submeter às instituições militares e suportar o cansasto dos exercícios para escapar de perigos, dos quais não se tem mais medo. 69
O maior erro que podem cometer aqueles que organizam um exército em ordem de batalha é fazer dele um só corpo e esperar assim a vitória mediante o êxito de um único ataque. 70
É MENOS IMPORTANTE FERIR O INIMIGO DO QUE SE GARANTIR CONTRA SEUS GOLPES. 84
ARTILHARIA. DO INIMIGO
É preciso, portanto, já que não pode se proteger, PROCURAR SOFRER O MENOS POSSÍVEL O EFEITO DELA, e não há outro meio senão PROCURAR APODERAR-SE DELA IMEDIATAMENTE. Deve-se, pois precipitar-se sobre ela com uma corrida rápida e não em massa e com passo cadenciado. A vivacidade da corrida não permite ao inimigo abrir fogo uma segunda vez e, com as fileiras esparsas, menos soldados são atingidos. Mas, esse meio é impraticável para uma tropa formada em ordem de batalha. Se ela marchar depressa, desorganiza-se e, se avança com as fileiras desalinhadas, poupa ao inimigo a dificuldade de rompê-la. 85
Um exército tem outros perigos a temer, além da artilharia, e é contra esses perigos que pode se defender com as armas e as disposições que estabelecemos. Disso decorre que SUA SALVAÇÃO ESTARÁ TANTO MAIS ASSEGURADA QUANTO MELHORES ARMAS TIVER E QUANTO MAIS COMPACTAS E CERRADAS ESTIVEREM SUAS FILEIRAS. 87
A ARTE DA GUERRA - MAQUIAVEL
É pela música que o comando que não foi transmitido pela voz adquire uma verdadeira importância. Creio que devo falar da música militar dos antigos. 94
Não acho que os gritos continuados sejam úteis, pois podem impedir de ouvir os comandos, o que não deixa de ser um grande perigo. 95
Por isso os romanos preferiam sempre as planícies e se afastavam dos terrenos desiguais. Mas, se as tropas são pouco numerosas e mal treinadas, deve-se escolher posições em que se possa tirar vantagem da própria inferioridade ou de não ter nada a temer por sua inexperiência. 98
Deve-se também procurar ocupar o local mais elevado, a fim de cair sobre o inimigo com maior violência. Deve-se tomar cuidado, no entanto, para jamais posicionar o exército ao pé de uma montanha ou num local que lhe seja próximo, porque se o inimigo ocupar esse ponto, sua artilharia, desde esse posto superior, pode causar grandes danos e não há meio algum de se defender. 98
Procure-se ainda que, ao dispor o exército, o sol ou o vento não batam de frente, pois perturbam a visão, um por seus raios e o outro pela poeira que levanta diante do exército. Além disso, o vento prejudica o efeito das armas de tiro e amortece seus golpes. Quanto ao sol, não basta que bata de momento no rosto é preciso ainda que não chegue até o exército, na medida em que o dia avança. Deve-se, pois, dispor o exército de maneira que lhe volte às costas e que passe muito tempo antes que o tenha diante do rosto. 98
Se a cavalaria for inferior, deve-se colocar o exército no meio de vinhedos ou bosques ou ainda no meio de obstáculos similares. 99
Observei muitas vezes na história que os maiores generais da antiguidade, após terem reconhecido o lado mais forte do exército inimigo, opuseram-lhe quase sempre seu lado mais fraco. E assim, seu lado mais forte ao lado mais fanco do inimigo. Ao dar início à ação bélica, recomendavam a seu lado mais forte de suportar somente o choque do inimigo sem rechaçá-lo e o seu lado mais fraco de fugir e se retirar para a última linha. Disso resultavam 2 efeitos muito embaraçosos para o inimigo. Primeiro, seu lado mais forte se encontrava envolvido; em seguida, estando certos da vitória, raramente não ocorria de a desordem se difundir em suas fileiras, acarretando sua ruína. 99
Aquele que quiser entrar numa batalha com a certeza quase absoluta de que não será derrotado deverá escolher um local que lhe ofereça alguma distância, um refúgio quase seguro, atrás de um pântano ou nas montanhas ou ainda numa cidadela, pois, nesse caso, não pode ser perseguido pelo inimigo e conserva todos os meios de persegui-lo. Foi a vantagem que teve Aníbal quando a sorte começou a ficar contra ele e temia a coragem de Marcelo. 100
Às vezes é muito importante, no meio da ação, espalhar o boato da morte do general inimigo ou a derrota de parte de suas tropas. Esse foi muitas vezes um meio de garantir a vitória. Pode-se facilmente semear a desordem na cavalaria inimiga surpreendendo-a com um fato novo ou por meio de gritos inesperados. 102
Muitos generais armam ciladas ao inimigo, como já dissemos, quando a região é própria para emboscadas. 102
Se durante a ação ocorre algo próprio que possa assustar os soldados, deve-se ocultá-lo com o cuidado ou, se for possível, tirar proveito disso. 103
O que há de mais difícil é reagrupar um exército em fuga e reconduzi-lo ao combate. Deve-se observar bem se está em debandada por inteiro, sendo então impossível de reagrupá-lo, ou se uma só parte se pôs em fuga, o que tem remédio. 103
Pode-se vencer o ser vencido. No primeiro caso, deve-se perseguir a vitória com a maior rapidez. (...) No segundo caso, um general deve examinar se não pode tirar alguma vantagem de sua derrota, sobretudo quando lhe resta alguma parte de seu exército. Pode-se aproveitar, então, a negligência do inimigo que, frequentes vezes após a vitória, entrega-se a uma confiança cega que fornece os meios para atacá-lo com êxito. 104
Haverá de procurar, portanto, tirar do inimigo, os meios de persegui-lo ou espalhará o maior número de obstáculos que puder em seu caminho. 104
Alguns, prevendo a derrota, após terem estabelecido um local de reagrupamento, ordenavam a seus generais que fugissem para diversos pontos e por caminhos diferentes. O inimigo receando dividir seu exército deixava-os retirar-se segurança a todos eles ou, pelo menos, a maior parte deles. Outros jogaram diante do inimigo seus pertences mais preciosos, a fim de que, retardando-o por sua ganância pelo saque, desse-lhes mais tempo para a fuga. 104
Titus Dimius usou uma estratégia peculiar para esconder a derrota que havia sofrido numa batalha depois de ter combatido até o cair da noite, com uma grande perda de seus homens, mandou a enterrador, durante a noite, a maior parte de seus mortos. O inimigo, ao perceber pela manhã tantos homens do seu lado e tão poucos do lado dos romanos achou que havia perdido a batalha e deu-se à fuga. 104-105
Devo ainda falar de todas as precauções que um general deve tomar antes de se decidir pelo combate. Em primeiro lugar, nunca deve dar início a uma ação, a menos que perceba uma vantagem segura, a não ser que seja forçado pela necessidade. 105
Encontra-se em vantagem quando ocupa um lugar mais favorável, quando tem tropas mais disciplinadas e mais numerosas. 105
É forçado ao combate quando a inação acarreta necessariamente sua ruína, seja por falta de dinheiro, o que poderia levá-lo a temer a deserção de seu exército, seja porque está precisando, pela falta de víveres ou que o inimigo esteja esperando a qualquer momento novos reforços. Em todos esses casos deve-se sempre combater, mesmo com uma desvantagem clara, porquanto é melhor tentar a sorte que, apesar de tudo, pode ainda ser favorável, do que esperar pela indecisão uma ruína certa. 105
Um general então é tão culpado por não combater como por deixar escapar, em qualquer outra circunstância, a oportunidade de vencer por ignorância ou por falta de ação. 105
Muitas vezes, é o próprio inimigo que oferece vantagens, muitas vezes é a própria habilidade que conta. Aconteceu, às vezes, que na passagem de um rio, um exército tenha sido derrotado por um inimigo vigilante que o atacou no exato momento em que se encontrava dividido em 2 partes pelo rio. 106
Se o inimigo estiver cansado para continuar sua perseguição com muito ínpeto, não se pode desperdiçar essa ocasião de atacá-lo, desde que as próprias tropas estejam descansadas e dispostas. 106
Quando ele já tiver ficado longo tempo com armas a postos e que nessa longa espera já perdeu seu primeiro ardor, então é o momento da início ao combate. 106
Seu inimigo diminuiu suas forças, dividindo seu exército ou por qualquer outro motivo, é precisamente o momento em que se deve atacar. 106
A maioria dos generais prudentes preferiu receber o choque do inimigo que marchar contra ele para atacá-lo com a impetuosidade. Quando homens duros e firmes suportarem com vigor esse primeiro furor, essa impetuosidade descamba, quase sempre, para o desânimo. 106
O que há demais útil e de mais importante para um general é ter sempre junto dele alguns homens seguros, esclarecidos e de grande experiência que lhe sirvam de conselheiros e que o mantenha informado sem cessar a respeito de seu exército e daquele do inimigo. Juntos e com cuidado, deverão examinar de que lado está a superioridade em número, em armas, na cavalaria e na disciplina; quais são as tropas mais resistentes aos esforços, quais merecem mais confiança, tanto da cavalaria como da infantaria; qual é a natureza do terreno que ocupam; se é mais ou menos favorável ao inimigo; qual dos 2 exércitos consegue viveres com mais facilidade; se é vantajoso adiar ou dar início ao embate; o que se pode esperar ou temer ao prolongar a duração da guerra, porque muitas vezes nesse último caso, os soldados desanimam e desertam, cansados pelos esforços e pelo tédio. 106-107
NUNCA CONDUZIR UM EXÉRCITO PARA O COMBATE QUANDO SUBSISTIR NO MESMO A MÍNIMA DÚVIDA DA VITÓRIA. 107
Enquanto se permanecer no campo, não se pode evitar de entrar em combate quando se tem pela frente um inimigo que quer o combate a qualquer preço. Não haverá outro meio, então senão o de se manter sempre ao menos a 50 milhas dele, para ter tempo de levantar acompanhamento, quando ele estiver marchando contra. 107
Perderam o tempo em inúteis adiamentos, não souberam aproveitar a ocasião do combate quando o exército passou o rio nem se afastaram a tempo... 107
REPITO, NÃO SE PODE EVITAR UMA BATALHA. QUANDO O INIMIGO A QUER A QUALQUER PREÇO. 108
Os soldados estão ansiosos para entrar em combate, mas o número e a posição do inimigo levam a temer uma derrota, acontecendo que se é forçado a fazer-lhes perder esse ânimo; ora a necessidade e as circunstâncias obrigam a dar combate, mas os soldados estão sem confiança e pouco dispostos para a batalha. No primeiro caso, deve-se acalmá-los e no segundo inflamá-los. Para acalmá-los, quando os discursos não forem suficientes, não há outra solução do que sacrificar alguns ao inimigo e, então, tanto aqueles que entraram em ação, como aqueles que não participaram do combate ficaram convencidos. 108
Se se quiser que os soldados se encarnissem no combate, deve-se ter cuidado, sobretudo, de não lhes permitir que ao final da guerra, mandem para casa seu espólio de guerra ou que o depositem em qualquer outro lugar seguro. Pressentem assim que, se a fuga salva a vida deles, não haverá de salvar o que possuem e, para defendê-lo, muitas vezes lutam com mais obstinação do que se tratasse de sua própria vida. 108
A VERDADEIRA DIFICULDADE CONSISTE EM DESTRUIR, NO ESPÍRITO DA MULTIDÃO, UM ERRO FUNESTO CONTRÁRIO AO INTERESSE PÚBLICO E AOS PRÓPRIOS OBJETIVOS. 109
Era preciso, portanto, que outrora os generais fossem oradores, POIS SE NÃO SE SOUBER FALAR A TODO UM EXÉRCITO, É DIFÍCIL ESPERAR GRANDE ÊXITO. Esse é um talento que foi totalmente perdido hoje. Pode-se verificar na vida de Alexandre. Quantas vezes ele foi obrigado a discursar? A todo o seu exército. SEM ESSA VANTAGEM, NUNCA TERIA CONSEGUIDO CONDUZI-LO CARREGADO DE PRECIOSOS DESPOJOS PELOS DESERTOS DA ÍNDIA E DA ARÁBIA. COM TAMANHO CANSAÇO E TANTOS PERIGOS. 109
OCORREM SEM CESSAR ACIDENTES QUE PODEM LEVAR À RUÍNA UM EXÉRCITO, SE SEU GENERAL NÃO TIVER O TALENTO OU HÁBITO DE FALAR. 109
Por palavras, dissipa o temor, inflama a coragem, incita a obstinação, revela as trapaças do inimigo, oferece recompensas, mostra os perigos e os meios de evitá-los, repreende, exorta, ameaça, difunde a esperança, o elogio ou a crítica e a enprega, enfim, todos os meios que impelem ou detêm as paixões dos homens. 109
Uma república ou um monarca que quiser formar um exército e conferir-lhe seu antigo brilho deve, portanto, habituar seus soldados a escutar seu general e o general a falar a seus soldados. 109
A CONFIANÇA NASCE NELES POR CAUSA DA SUPERIORIDADE DE SUAS ARMAS E DE SUA DISCIPLINA, DE SUAS VITÓRIAS RECENTES, DA GRANDE CONSIDERAÇÃO QUE TÊM POR SEU GENERAL. 110
PODE-SE TER VÁRIAS RAZÕES PARA COMBATER COM A ENCARNIÇAMENTO, MAS A MAIS FORTE É AQUELA QUE OBRIGA O SOLDADO A VENCER OU A MORRER. 110
MANOBRAS SÃO MUITO IMPORTANTES. 119
Muitas vezes as ordens do general, mal-entendidas ou mal interpretadas, causaram a derrota de um exército. É preciso, portanto, que no combate a ordem seja clara e precisa. Se for empregada a música, os sons devem ser de tal modo distintos que não se possa confundi-los. Se pelo contrário, o comando for transmitido de viva-voz, deve-se ter cuidado de evitar palavras gerais, de empregar aquelas que exprimem uma ideia particular e precave-se ainda para que essas não possam ser mal interpretadas. Muitas vezes a palavra recuar, pôs um exército em fuga; deve-se dizer "para trás". 119
Que todos os outros comandos sejam simples e claros, como fechar fileiras, manter posição, avançar, bater em retirada. Sempre que for possível com andar de viva-voz, deve ser feito, do contrário, fazer o uso da música. 120
Um soberano deve preocupar-se que seu exército seja o mais ágil possível e desembaraçá-lo assim de toda carga inútil e contrária à atividade de suas operações. 120
Nossas guerras atuais empobrecem igualmente o vencedor como o vencido, porquanto, se um perde seu Estado, o outro arruína suas finanças e seus recursos. Isso não acontecia entre os antigos. A guerra enriquecia sempre o vencedor. A causa dessa diferença é que hoje não se tem em conta alguma os desponjos, como entre os antigos, e que, ao contrário, são entregues à avidez dos soldados. Esse método traz 2 grandes males. O primeiro é aquele de que acabo de falar. O segundo é de inspirar ao soldado mais amor pelos despojos do que empenho pela disciplina. NÃO, POUCAS VEZES SE VIU A COBIÇA DE UM EXÉRCITO LEVAR À PERDA DE UMA VITÓRIA JÁ ASSEGURADA. 121
Nos romanos antigos... todos os despojos de guerra pertenciam ao Estado que deles dispunha a seu bel prazer. 121
Por esse método, o soldado procurava vencer e não saquear. As legiões romanas rechaçavam o inimigo sem persegui-lo, para não romper suas fileiras e deixavam esse cuidado à cavalaria, as tropas leves e aos auxiliares. Se os despojos fossem abandonados para quem deles primeiro se apossasse, teria sido impossível e até injusto manter as legiões em suas fileiras, expondo assim o exército aos maiores perigos. 122
Uma emboscada imprevista pode muitas vezes levar à derrota, mas se for prevista não apresenta perigo. 123
Quanto ao segundo perigo, de ser atraído para uma emboscada pelos estratagemas do inimigo, deve-se, para preveni-lo, acreditar que dificilmente o que não parece seja verdadeiro. 123
Para ter menos a temer de suas armadilhas, para melhor prevenir todo o perigo, deve-se estar sempre precavido contra o inimigo, mesmo que ele possa estar demonstrando mais fraqueza e menos previdência. Nesse caso, há 2 coisas a fazer: ter um justo temor do inimigo, tomando decisões em decorrência disso, mas manter um tom de grande desprezo por ele nos discursos e em todas as ações aparentes. Desse modo, evita-se todo perigo e transmite-se confiança ao exército. 123
NADA É MAIS ÚTIL PARA A GUERRA DO QUE ESCONDER SEUS PLANOS. 124
Para que um ataque súbito não provoque a desordem num exército, é preciso mantê-lo sempre pronto a entrar em combate. 124
Deve-se ainda ter cuidado para que uma parte do exército não se afaste da outra durante a marcha ou que alguns machem muito depressa e outros, muito devagar, porque o exército perde então sua solidez e a confusão se instala nas fileiras. 124
MANTENHAM A UNIFORMIDADE DO PASSO... A MÚSICA É O MELHOR MEIO PARA QUE SE POSSA USAR ESSE FIM. 124
Quando os rios são muito rápidos, pretendendo fazer passar infantaria com maior segurança, deve-se colocar uma parte mais numerosa da cavalaria rio assima para deter a impetuosidade do rio e o resto, rio abaixo, para socorrer os soldados de infantaria que o rio pudesse arrastar. 125
Um acampamento para ser verdadeiramente seguro, deve ser forte bem disposto. 130
Nunca um general irá acampar perto do inimigo, a não ser que tenha a intenção de enfrentá-lo numa batalha quando este quiser aceitá-la. Com semelhante resolução, não corre nenhum perigo extraordinário, porque, então, ele mantém sempre prontos para o combate seus 2 primeiros destacamentos de batalha, enquanto que o terceiro fica encarregado do acampamento. 138
ORDEM: necessidade de renová-la.todos os dias e manter todas as outras disposições a tomar para a guarda do acampamento. 138
Há uma precaução muito importante que previne muitos perigos quando é tomada com exatidão e pode trazer grandes danos quando é negligenciada. É a de observar com extrema atenção aqueles que durante a noite ausentam-se do acampamento ou ousam nele se introduzir. 139
Aqueles que se ausentam sem permissão deve-se punir-los como desertores, e os estranhos devem ser interrogados sobre sua condição, sua profissão e suas outras qualidades. Essa vigilância impede o inimigo de fazer contatos com vossos oficiais e de ficar ao corrente de vossos planos. 139
Mas, não basta que esses regulamentos sejam úteis. É preciso ainda fazê-los executar com grande severidade, porque em nenhuma circunstâncias se deixa de ter necessidade de extrema exatidão por parte do exército. As leis estabelecidas para salvar o exército devem ser, portanto, muito rigorosas e executadas sem piedade. 139
Os romanos puniam de morte quem quer que faltasse a guarda ou abandonasse o posto que lhe havia se destinado no combate, quem quer que levasse em segredo pertences do acampamento, quem quer que se gloriasse de uma bela ação que não tivesse realizado, que combatesse sem a ordem do seu general, ou, por medo, jogarsse suas armas diante do inimigo. 139
É preciso grandes recompensas sempre que as penas são muito rigorosas a fim de que os homens tenham igual motivo para temer e esperar. 139
Os romanos haviam estabelecido um preço para cada grande ação. Para aquele, por exemplo, que, durante o combate, salvava a vida de seu concidadão, para aquele que havia sido o primeiro a entrar numa cidade sitiada ou no acampamento inimigo, aquele que feria ou matava o inimigo ou o tirava de seu cavalo. Todos esses atos de coragem eram reconhecidos e recompensados pelos consules e elogiados publicamente por todos os cidadãos. O soldado que tivesse obtido honras militares por qualquer uma das grandes ações, além da glória da consideração que gozavam entre seus companheiros ao retornarem à pátria, eram conduzidos com pompa e aparato sobre os olhares de seus parentes e amigos. 139-140
Os romanos haviam estabelecido uma pena especial que acho que não devo deixá-la passar sob o silêncio. Quando o culpado era reconhecido como tal pelo tribunal ou pelo cônsul, esses batiam nele levemente com uma vara e então lhe davam permissão de fugir e aos soldados, de matá-lo. Todos atiravam pedras ou dardos contra ele ou atacavam com outras armas. Era difícil para ele ir muito longe e muito poucos escapavam, mesmo esses, porém, não podiam voltar para a sua pátria sem ficarem cobertos de vergonha e de ignomínia, e a morte era para eles um suplício menos rigoroso. Essa pena dos romanos foi adotada pelos suíços. Os soldados condenados à morte são executados publicamente por seus companheiros. Isso é muito sábio e bem-estabelecido. O melhor meio de impedir um homem de defender um culpado é de encarregá-lo da punição desse culpado, porque o interesse que esse lhe inspira e o desejo de seu castigo o agitam de modo totalmente diverso, quando a punição é colocada em suas mãos ou confiada a outro. 140
SE NÃO QUISER QUE O POVO SE TORNE CÚMPLICE DOS PLANOS CULPOSOS DE UM CIDADÃO, DEVE-SE FAZER COM QUE O POVO SEJA SEU JUIZ. 140
QUESTÃO DE MULHERES E JOGOS ERAM SEVERAMENTE PROIBIDOS. Eles tinham tantos exercícios, em conjunto ou particularmente, que mantinham o soldado constantemente ocupado não lhe sobrando tempo em sonhar com o jogo ou com o amor e com todos os outros divertimentos de nossos ociosos e indisciplinados saudados. 140-141
Os romanos queriam conservar constantemente a forma de seu acampamento. Todas as outras considerações cediam àquela. Há 2 pontos, porém, que jamais perdiam de vista, procuravam sempre um lugar sadio e cuidavam para nunca correr o risco de serem sitiados pelo inimigo ou de ter a água e os víveres cortados. Para evitar as doenças, afastavam-se dos lugares pantanosos e expostos a ventos contagiosos. Reconheciam esse perigo mais pela aparência dos habitantes do que pela qualidade do terreno. Quando viam os habitantes com uma cor ruim, asmáticos ou atacados por qualquer outra doença buscavam outro lugar pra acampar. Para não correr o risco de ser sitiado, é preciso examinar de que lado e em que lugar estão os amigos ou os inimigos e, desse modo, julgar, o que há para temer. Um general deve, portanto, conhecer perfeitamente todas as posições de uma região e ter em torno dele homens que igualmente as conheçam bem. 141
Evitam-se as doenças e a fome, submetendo o exército a um regime regulado. Se se pretende conservar a saúde dos soldados, deve-ser obrigá-los a deitar sempre sob a tenda, deve-se escolher para acampar lugares que ofereçam sombra e forneçam lenha para cozinhar os alimentos. Não se deve fazê-los machar durante intenso calor, tendo o cuidado, portanto, de levantar acampamento durante o verão antes do dia raiar. Durante o inverno, não se deve pô-los em marcha no meio de gelo e neve, a não ser quando tiverem os meios para encontrar fogo para se aquecer. Deve-se ter cuidado para que estejam sempre bem vestidos e não bebam águas insalubres. Deve-se ter sempre médicos para cuidar daqueles que caem doentes, porque nada se pode esperar de um general que tem igualmente de combater tanto as doenças quanto o inimigo. Mas, o melhor meio de manter a saúde dos soldados é por intermédio dos exercícios, por isso os antigos treinavam seus exércitos todos os dias. Deve-se, portanto, considerar bem o preço desses exercícios: no acampamento dão a saúde e no combate, a vitória. 142

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