Mesmo em
crise, o hospital paulista vendeu imóvel abaixo do preço de referência
Com uma
dívida estimada em 320 milhões de reais, a Santa Casa de São Paulo expôs um dos
vários problemas do sistema de saúde pública brasileiro ao paralisar o
funcionamento de seu pronto-socorro em meados de julho. Além de deixar de atender perto de 1,2 mil
pacientes por dia, a decisão tomada pelo provedor Kalil Rocha Abdalla abriu uma
crise entre a Secretaria Estadual e o Ministério da Saúde. Enquanto Abdalla
cobrava mais recursos para garantir a reabertura da urgência, o Estado e a União
travavam uma disputa de versões sobre as responsabilidades no caso. O
secretário Davip Uip afirmava realizar corretamente todos os repasses. Por sua
vez, o ministro Arthur Chioro apresentou números segundo os quais o governo
paulista teria deixado de transferir cerca de 70 milhões de reais ao hospital
filantrópico.
Disputas
políticas à parte, o fato é que todas as Santas Casas do País atravessam uma
crise financeira irreversível, causada pelo fato de prestarem um serviço
público sem, ao menos, ser um órgão público. As Santas Casas são instituições
filantrópicas, sem fins lucrativos e administradas, em geral, por irmandades ou
fundações. Somam-se a isso os problemas causados pela defasagem da tabela SUS e
pela falta de investimento dos governos estaduais em novos hospitais e unidades
de saúde. É preciso salientar, entretanto, o papel dos administradores nessa
situação.
No caso da
instituição paulistana, administrada pela Irmandade Santa Casa, a devassa a ser realizada pelo governo
estadual em suas contas poderá apontar possíveis irregularidades. Além de
descobrir como se ergueu a dívida milionária, os auditores poderão averiguar se
empresas de parentes de diretores ou médicos foram beneficiadas com contratos e
como uma única empresa credora tem a receber cerca de 25 milhões de reais. Além
disso, seria interessante uma investigação específica para entender como se dão
as negociações para venda e aluguel de imóveis que integram a lista de bens da
Irmandade ao longo das gestões de Kalil Rocha Abdalla. A venda de um deles, em
especial, chama atenção.
A
transação em si não contém nenhuma irregularidade formal, tampouco CartaCapital
pretende acusar os envolvidos na negociação de desrespeitar as regras do setor
imobiliário da cidade de São Paulo. Trata-se apenas de expor os detalhes da
compra para, entre outras coisas, entender por qual motivo a Santa Casa vendeu
um de seus imóveis por um valor muito abaixo do valor venal. Eis os fatos,
todos registrados em cartórios de imóveis e tabelionatos da capital paulista.
Segundo
consta no Livro nº 2 de Registro Geral do 1º Cartório de Registro de Imóveis de
São Paulo, o imóvel em questão está situado no bairro da Liberdade, na esquina
das ruas Santa Madalena e Martiniano de Carvalho. Registrado em nome da
Irmandade Santa Casa, em 2009, integrava, antes dessa data, a lista de bens do
inventário de Baselice Schmidt, falecida em 1966. Com área total de 985 metros
quadrados, o terreno, segundo seu registro, tem valor venal de 9,4 milhões de
reais. Mas foi vendido por apenas 6,5 milhões.
Sobre a
negociação, temos o seguinte. Em primeiro de julho de 2013, a incorporadora
You.Inc, representada pelos seus proprietários Abrão e Eduardo Muszkat,
registraram na Junta Comercial a Onix Empreendimentos Imobiliários. Entre as
ações da Onix, focamos na compra dos seis imóveis localizados no mesmo
quarteirão da propriedade da Santa Casa, situado entre as ruas Santa Madalena,
Maestro Cardim, Pedroso e Martiniano de Carvalho.
Com
interesse em deslanchar o empreendimento na região, a Onix iniciou as
negociações com os proprietários dos imóveis e contratou um escritório de
advocacia para produzir o relatório jurídico complementar acerca das
características de cada um dos seis terrenos. Encaminhado a Fernanda Chahin
Bali de Aguiar, funcionária da You.Inc, o relatório da Anmar & Anmar
Advogados Associados analisou as medidas dos terrenos e suas respectivas
situações documentais. Constam no documento as especificações dos seis lotes: o
imóvel da Santa Casa, cuja matrícula municipal é 78.043, outros três imóveis
situados na Rua Santa Madalena e mais dois lotes que somados possuem quase a
mesma metragem da propriedade da Irmandade.
É o valor da compra desses dois últimos lotes
que deixa a venda do terreno da Santa Casa mais estranha. Enquanto a área do
hospital, com seus 985 metros quadrados, foi vendida por 6,5 milhões de reais,
os dois lotes, que, somados, possuem pouco mais de 900 metros quadrados, foram
adquiridos do espólio de Lia Uchoa Canto Bierrenbach por 8,6 milhões de reais.
Ou seja, no mesmo quarteirão a Onix
pagou 2 milhões a mais por dois lotes com metragem inferior.
A Santa
Casa informou que a venda foi aprovada pelo conselho formado por 50 membros da
Irmandade e que não houve pagamento de comissão. A You.Inc informou: “A transação de venda ocorreu em situação
concorrencial com outras incorporadoras do mercado, tendo a empresa oferecido
as melhores condições econômicas, sendo a venda aprovada pela Irmandade”. O
que nenhuma das duas envolvidas na transação respondeu foi: quem foi o corretor
responsável pela negociação. Talvez, quando essa questão for esclarecida, fique
mais fácil entender os motivos de a Santa Casa deixar de ganhar 3 milhões ao
vender seu imóvel abaixo do valor venal,
quantia que poderia ter evitado o fechamento do pronto-socorro.
Fonte:
http://www.cartacapital.com.br/blogs/blog-do-serapiao/haja-caridade-na-santa-casa-9172.html
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